Biotecnologia para cultivo de cavalos-marinhos em cativeiro


Laborarório da Ufes, vinculado ao Departamento de Oceanografia e Ecologia, desenvolve pesquisa para criação como alternativa à captura para comercialização.

Quem vê os graciosos cavalos-marinhos em seu deslizar harmonioso dentro dos aquários não imagina o quanto eles são venerados pelo mercado de peixes ornamentais. O cavalo-marinho sempre esteve entre as 10 espécies mais representativas dos peixes capturados para exportação. Por esta razão, hoje é proibida sua captura para comercialização.

O cultivo comercial sustentável, única solução para atender à demanda sem sacrificar as populações da espécie, é o alvo principal do projeto implantado no Espírito Santo pelo Laborarório de Ictiologia (Ictiolab) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), vinculado ao Departamento de Oceanografia e Ecologia, em Aracruz.


Leia também: Quando a tecnologia encontra o pasto


Dados do Ictiolab afirmam que o comércio de cavalos-marinhos envolve pelo menos 77 países. No Brasil, o Hippocampus é um dos gêneros de peixes ornamentais marinhos mais comercializados, o que tem causado um declínio das populações de cavalos-marinhos ao redor do mundo.

Em busca de uma alternativa a essas capturas, o time de pesquisadores formado por Maik da Hora, Jean Christophe Joyeux e Cristielli Sorandra Rotta tem se empenhado em, por meio da biotecnologia, aprimorar as técnicas de cultivo dos cavalos-marinhos Hippocampus reidi e fechar o ciclo reprodutivo do Hippocampus erectus em cativeiro. Para isso, quatro experimentos já estão sendo realizados em aquários de 20 litros.

Aquários da pesquisa para o aprimoramento das técnicas de cultivo de cavalos-marinhos em Aracruz (Fotos: Divulgação)

ALTERNATIVA SUSTENTÁVEL

O risco de extinção da espécie conhecida como Hippocampus reidié uma das razões para seu estudo constante. Não é de hoje que cientistas tentam encontrar alternativas sustentáveis para continuar abastecendo a demanda mundial. Pesquisas sobre o cultivo de cavalos-marinhos começaram nos anos 1980, mas foi a partir dos anos 2000 que ganharam força, devido à preocupação com as populações naturais desses peixes, que apresentaram declínio.

“As pesquisas aqui no Estado e no Brasil começaram por volta do ano 2000, com uma antiga empresa exportadora de peixes ornamentais capturados, que viu no cultivo uma alternativa à captura de espécies selvagens. Assim, em 2006 essa empresa iniciou uma parceria com o laboratório de Ictiologia da Ufes para acompanhar, relatar e ajudar no desenvolvimento do cultivo de uma das espécies de cavalos-marinhos que ocorrem no nosso litoral, o Hippocampus reidi”,conta Maik da Hora.

Atualmente existem pelo menos quatro laboratórios de universidades no País que trabalham com cultivo de cavalos-marinhos e outros ornamentais. Após pouco mais de uma década de pesquisas, e um protocolo de cultivo mais aperfeiçoado, essas técnicas estão sendo transferidas para a indústria.

“Estamos utilizando os cavalos-marinhos para diversos outros ensaios laboratoriais, inclusive para analisar os efeitos das mudanças climáticas sobre os peixes”, completa.

JOIAS DO OCEANO

A indústria de organismos aquáticos ornamentais movimenta mais de US$ 15 bilhões entre produtos, serviços e organismos.

“A aquicultura ornamental marinha possui um enorme potencial de crescimento no Brasil e no mundo, entre peixes, corais, moluscos e crustáceos. Das espécies de peixes ornamentais marinhos comercializados, por exemplo, aproximadamente 90% ainda são capturados no ambiente, impactando diretamente os estoques selvagens, enquanto apenas 10% são produzidos em cativeiro. O Brasil possui espécies de peixes que são muito coloridas e atrativas no mercado. Para se ter uma ideia, das 136 espécies marinhas permitidas para captura e comercialização, apenas duas estão sendo produzidas em cativeiro de forma comercial, o neon gobi Elacatinus figaroe o cavalo-marinho Hippocampus reidi”,detalha o pesquisador.

Cavalos-marinhos são uma das espécies de peixes ornamentais mais comercializadas

BIOTECNOLOGIA EM ASCENSÃO

Um estudo feito para o programa Indústria 2035, plano de desenvolvimento para o Estado elaborado pela atual gestão da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), com coordenação do Instituto de Desenvolvimento Industrial do Espírito Santo (Ideies), identificou a biotecnologia como um dos setores portadores de futuro para o Espírito Santo.

Confirmando o que demonstra a pesquisa, Maik da Hora salienta que a biotecnologia tem grande potencial de crescimento no Estado e pode vir a ser um carro-chefe da economia no futuro.

“Vejo com positividade esse crescimento, uma vez que temos diversas pesquisas sendo realizadas na área de biotecnologia na Ufes e outras universidades, com diversos mestres e doutores formados e produtos patenteados. Além disso, há o interesse por parte do governo estadual no crescimento deste setor. A biotecnologia é aplicada em diversas áreas – saúde, alimentação, indústria, ambiental e muitas outras. Mas ainda precisamos de mais investimento em ciência para subsidiar os estudos em biotecnologia”, analisa da Hora.

Com um investimento massivo em ciência, tecnologia e inovação, o pesquisador afirma que o Brasil deixará de ser um país de exploração.

“Há grandes indústrias de exploração – animal, vegetal e mineral –, que degradam nosso ambiente para gerar um produto que é vendido em grandes quantidades por um preço barato. Esse cenário já passou da hora de ser modificado. Temos grandes mentes criativas e um potencial enorme de crescimento na área de ciência, tecnologia e inovação. Temos que exportar uma tecnologia sustentável”, afirma.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *