João Gualberto conta a história do empreendedorismo capixaba


Buscando fazer um resgate da saga empreendedora capixaba, entrevistamos o pesquisador e professor João Gualberto Vasconcellos, que nos traz uma profunda visão histórica sobre o tema, abordando o empreendedorismo praticado no Espírito Santo desde o período colonial até a última metade do século 20.  

Ex-secretário de Cultura do ES, João Gualberto é mestre e professor emérito da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), doutor em Sociologia pela Escola de Altos Estudos em Ciência Política de Paris, na França, e pós-doutorado em Gestão e Cultura.


Quando falamos de empreendedorismo, quais fatos marcaram a história do Espírito Santo?

Vamos começar na chegada dos portugueses, a chamada Colonização (que é um nome muito ruim, mas vamos pensar assim). O Império Português estava construído em cima de alguns pilares: o cristianismo era um deles e a Ordem de Cristo era a expressão da organização deste cristianismo quando ele chega ao Espírito Santo, mas – uma coisa importante – não haveria o Império português se não houvesse os jesuítas. Então os jesuítas formaram a primeira ordem criada pela Igreja que não era monástica, que não vivia para os monastérios. Os jesuítas tinham uma ligação muito grande com a produção de riquezas e, de modo específico, com a educação. Eles vieram para o Espírito Santo, criaram o Colégio de Santiago e criaram incialmente uma grande fazenda chamada Muribeca, lá na fronteira com o Estado do Rio, e depois criaram uma fazenda muito grande também chamada Araçatiba; e eles tiveram, aqui na região de Vitória, a fazenda Carapina. Então, este conjunto de fazendas foi, provavelmente, o maior conjunto produtivo; foram, provavelmente, as maiores unidades produtivas do Brasil no século XVI.

Portanto, da passagem dos jesuítas restou um conjunto arquitetônico que começa lá no Muribeca – a fazenda onde tem a igreja Nossa Senhora das Neves; depois você tem Anchieta, que tem a basílica; depois você tem Guarapari, que tem origem jesuítica importante; depois você tem o Colégio de Santiago; você tem a igreja São João Batista, que é da antiga fazenda Carapina e você tem a Igreja dos Reis Magos. Só uma potência econômica poderia produzir um saldo arquitetônico deste tamanho no tempo colonial. Eles (os jesuítas) foram expulsos em 1759 e eram apenas 17 (há quem pense que era uma legião enorme). Para se ter uma ideia, nesta época, pouco antes da expulsão, eles fizeram o canal que hoje é o Rio Marinho – que saía lá da sede da fazenda Muribeca e ligava a região até a costa para facilitar a exportação. Esta fazenda chegou a ter 2 mil cabeças de gado. Portanto, a capacidade empreendedora dos jesuítas era extraordinária. Eles, no século XVII, em 1625 mais ou menos, se deslocaram para o interior. Eles foram atrás de ouro na região do Caxixe, que é Castelo, perto de onde fica a Fazenda do Centro. Ali eles criaram uma base, criaram uma igreja e depois houve um conflito muito grande quando chegaram os bandeirantes com os indígenas. Então eles desceram o rio Itapemirim (o rio Caxixe é afluente do rio Itapemirim, da bacia do rio Itapemirim), passaram por Cachoeiro e foram para a Vila do Itapemirim. Então o desbravamento e interiorização da colonização capixaba começa lá no Caxixe e depois na ida para o Itapemirim, que foi uma cidade importantíssima para o período colonial e durante o Império. Por isso eu acho que uma coisa que marca o Espírito Santo neste ramal do empreendedorismo e neste período da história é a presença jesuítica. E o são José de Anchieta era o provincial – que fundou São Paulo – e ele morreu no Espírito Santo não porque aqui era um lugar pouco importante. Ele morreu aqui porque aqui era muito importante – ele era um dos jesuítas mais importantes do Brasil. E o Anchieta é uma espécie de proto antropólogo porque ele aprendeu a língua dos índios, a sistematizou numa gramática e fez os rituais, sobretudo com as crianças, baseado naquilo que encantava os indígenas. Então ele escreveu autos que faziam representações, sendo o primeiro, digamos assim, autor teatral brasileiro. O teatro brasileiro, se formos rever a sua história, tem a ver com Anchieta. A compreensão do tupi-guarani também – porque nem todos do Império português pensavam assim, havia aqueles que queriam apenas matar os índios. Na verdade, quando os portugueses descobriram o Brasil, ou melhor, quando invadiram o Brasil, eles não tinham um projeto para quem era da terra a não ser escravizá-los ou eliminá-los. Portanto, os jesuítas também significaram uma tentativa, por todos os limites que se tenha na história, de construir uma incorporação do índio – cristianizá-los, ensiná-los a trabalhar – como uma alternativa ao que os invasores europeus achavam que era o processo civilizatório.

Então acho que é isso, o empreendedorismo histórico do Espírito Santo já existe desde o período colonial, pela passagem dos jesuítas – que é fortemente marcada por essas grandes fazendas; pelo Colégio de Santiago, pela presença jesuítica no Espírito Santo e por tudo o que isso significou economicamente e politicamente.


Como distinguir o empreendedor capixaba do que conhecemos como empreendedor? O que há de singular no comportamento, nas ações ou na história do empreendedor capixaba?

Eu acho que tem uma coisa que ajuda a nos explicar bastante: nós não tivemos uma intensa passagem pelo sistema da escravidão. Na verdade, você tinha um conjunto de escravizados africanos na região de São Mateus. O resto não era tão significativo. A escravidão é explicita no Espírito Santo na época da produção de café, a partir da segunda metade do século XIX, quando a instituição da escravidão já estava ferida de morte. Esse absurdo que é a escravidão, essa instituição abjeta que é a escravidão já estava vivendo seus momentos finais. Então nós começamos o processo de produção de café já tentando substituir a mão de obra cativa, como se falava na época, pela mão de obra de imigrantes italianos.

Eu acho, então, que nosso ciclo do café abandona a escravidão e nós todos sabemos que as elites brasileiras foram perversas com os escravizados. As elites brasileiras não ofereceram caminho nenhum, como a educação. Por que os italianos ganharam pedaços de terra e os negros não? Houve uma imigração cearense importante no Espírito Santo na década de 1870. Com uma grande seca que aconteceu no Estado nordestino, nós abrigamos cerca de cinco mil colonos. Demos terra aos cearenses. Por que o mesmo não foi feito com os escravizados? Na verdade, os escravizados foram condenados à miséria, à produção social da miséria. Não é espontânea a produção da miséria como um projeto de sociedade. E quem ocupa então o lugar que foi negado aos escravizados africanos é o colono italiano. Então eu acho que a marca muito importante do nosso processo de produção do café é a presença dos imigrantes italianos. Uma parte ganhou terras, uma parte foi trabalhar em fazendas – que, quando veio a crise da produção escravocrata do café, os fazendeiros não se sustentaram e começaram a vender pedaços de terra para os trabalhadores. Na verdade, os proprietários de terras, muitos deles – é o caso, por exemplo, do Coronel Duarte lá de Iconha – até davam terras, desde que você vendesse suas produções para eles. Então, na Fazenda do Centro aconteceu isso, por exemplo. Os salesianos compraram e deram as terras para os italianos que tinham certa estrutura de comercialização. Então o fato é que a presença dos italianos é muito forte e eu acho que uma boa parte da nossa capacidade de empreendimento vem daí. Muitas famílias italianas, como a família do Camilo Cola, em Cachoeiro – que foi uma potência na Viação Itapemirim; a família Chieppe, que foi uma outra potência. Quando você vê em Colatina os setores de produção do Marcos Guerra, em Linhares o setor de produção moveleira, enfim… Então eu acho que isso marca a nossa capacidade de empreendimento e a presença do imigrante italiano, da sua capacidade de trabalho, é uma coisa que vai se desdobrando nos chamados ‘arranjos produtivos’ – esses que já falei, como o moveleiro. Além da produção de café de alta qualidade. Eu acho que nós temos duas marcas muito fortes: a presença dos jesuítas e depois a presença dos imigrantes europeus – sendo que, a cada quatro imigrantes europeus que chegaram ao Espírito Santo, três eram italianos. Então, acho que, historicamente, nos caracteriza muito essa presença em massa do trabalho livre dos italianos.


Quem são, na sua visão, os empreendedores que contribuíram para o desenvolvimento e modernização do Estado?

Vamos pensar no século 20. Eu acho que temos alguns elementos importantes aqui. Um é a presença de italianos e alemães (germânicos, pomeranos em grande parte) com pequenos proprietários de terras, produção autônoma, o que depois cai um pouco na produção artesanal também, mas tem uma presença que eu queria chamar atenção que é a libanesa. Às vezes a gente esquece da importância do comerciante libanês no Espírito Santo. Onde tínhamos o comércio libanês mais forte? Na Vila do Itapemirim, que tinha muito dinheiro; Alegre tinha muito dinheiro; Cachoeiro tinha muito dinheiro… então você tem a presença dos libaneses como organizadores do processo comercial. Nenhum deles foi para a agricultura. Eles eram cristãos maronitas fugidos, no início do século 20, da Turquia – fugidos do Império Turco, que tinha avançado sobre o Líbano com a islamização. Então os que vieram para o Espírito Santo eram cristãos, que são os maronitas. Vamos pegar como exemplo a família Buaiz – o primeiro, acho que é Zé Buaiz, que chega aqui no início do século e começa a operar com o comércio atacadista. E é uma coisa muito interessante porque, quando chegava um imigrante do Líbano, ele ia ao Buaiz e recebia mercadoria para trabalhar durante um ano. Só depois de um ano que esse imigrante começava a pagar. Então ele permitiu a criação de uma rede de comércio de libaneses. Esses libaneses, muitos descapitalizados, os ‘mascates’, saíam vendendo nas propriedades, nas estações de trem, nas pequenas localidades, mas formavam uma rede comercial que se originava aqui em Vitória na família Buaiz. Então acho que uma coisa muito importante a destacar no nosso processo é essa presença libanesa, essa capacidade de empreendimento e, sobretudo, essa ancoragem atacadista que lhe deu a família Buaiz. Depois, a segunda geração da família Buaiz – que é de Américo Buaiz, Luiz Buaiz e Zé Buaiz – cresceu. Eles tiveram um moinho de trigo, uma fábrica de pregos até a terceira geração – a geração do Mequinho – que chega no Shopping Vitória (que foi o pai quem fez, mas ele quem tocou). Agora a família está na quarta geração, mas acho que essa presença é muito forte e ela é muito mais importante para o Espírito Santo do que a maioria de nós imagina.


Quais atitudes e ações colaborativas de empreendedores capixabas tiveram impacto e relevância na história do nosso Estado?

Eu acho que nós temos três momentos em relação a isso. Nos anos 20, as instituições mais fortes de reunião empresarial – e a primeira no Brasil – eram as associações comerciais. Acho que, salvo engano, 1912 é o ano em que se instala a Associação Comercial em Vitória. Quando chega Bley, em 30 – durante a Revolução de 30, é a Associação Comercial que dá uma certa ancoragem. A Associação Comercial já tinha Carlos Lindenberg, que era comerciante; tinha outras pessoas importantes… Então, a primeira, digamos assim, relação em que os empresários alavancam o processo político é, já nos anos 30, a Associação Comercial. Depois, Américo Buaiz criou, em 1954, a Federação do Comércio. Em 1958 criou a Federação das Indústrias – ele presidiu as duas. Quando chega nos anos 60, se reúne em torno de Jones Santos Neves um grupo grande de formuladores políticos e eles vão para a Findes, presidida por Américo Buaiz. Então a Findes cria um projeto de desenvolvimento para o Espírito Santo. Nesse projeto colaboram pessoas importantes da época – algumas ainda estão entre nós –, como Gutman Uchoa de Mendonça, Arthur Carlos Gerhardt Santos, Alvim Lugatti – um corpo muito grande de pessoas. Esse projeto cresce então e, em 1966, a Federação das Indústrias oferecer a Cristiano Dias Lopes, o primeiro governador dos ciclos militares, um projeto de desenvolvimento do Espírito Santo contratado por uma empresa de consultoria do rio de Janeiro. O Cristiano fez uma revolução, foi um governador extraordinário dos anos 60, mas, tudo o que ele fez foi formulado pela Federação das Indústrias. Então nós temos três momentos – dois importantes que é lá em 30 e depois nos anos 60 e depois, no início do século 21, quando o Espírito Santo passou por uma desorganização muito grande, inclusive nos sistemas empresariais, e aí os grandes negócios se organizaram no Espírito Santo Em Ação, que deu uma base de sustentação muito importante ao início do primeiro governo Paulo Hartung. Então eu diria que os empresários contribuíram com o nosso desenvolvimento no século 20 e no século 21, nesses três momentos de forma muito clara.


Quem inovou no Espírito santo? Quem ou o que nós podemos considerar como exemplo de inovação na história empreendedora capixaba?

No governo Cristiano Dias Lopes – que eu acho que é o governo da nossa virada, da nossa entrada na modernidade – que nos tira dos governos populistas (quando veio o golpe militar nós ficamos imersos no populismo) e essa formulação quem faz é o Cristiano, como disse aqui. Vamos pegar uma marca forte disso: a Real Café Solúvel, do Grupo Tristão. Quando veio a erradicação dos cafezais em 66 e 67 no Espírito Santo – tempo dos maiores absurdos que a teoria econômica pôde conceber. Por exemplo: como é que lá, em Brasília, os caras que dirigiam o Brasil falavam assim: “os capixabas agora têm um café de baixa qualidade, vamos arrancá-los todos. O Banco do Brasil paga por pé de café arrancado.” (?!) Todo mundo arrancou o café! O proprietário que já tinha a terra se capitalizou, botou gado; aqui no Norte do Estado foram pra Ecoporanga pra comprar terra, botar fogo e criar gado. Então o desmatamento do Espírito Santo passa a ser financiado pelo governo – uma política pública desastrada. Nós geramos uma miséria absoluta. Entre 60 e 70 nós perdemos número de habitantes no interior e eles vieram pra Vitória criar essas cidades desorganizadas que nós temos hoje; foram para o Rio de Janeiro, para as favelas. Neste momento, dois movimentos foram muito importantes, que é a passagem do arábica para o conilon. O prefeito de São Gabriel da Palha, Dario Martinelli junto com Eduardo Glazar, que é um imigrante polonês, começam a ir de casa em casa levado mudas e incentivando pessoas a plantarem. Portanto, o plantio de café conilon é uma ação de dois políticos e empreendedores do interior que entenderam que o produto que vinha dos nossos cafezais era horrível e que eles tinham que fazer alguma coisa. As pessoas, então, foram agregando a esse projeto. Isso é uma coisa muito bacana e muito importante e que mostra a força dessas comunidades. E aqui, em Vitória, o Grupo Tristão – que apostou no conilon, que apostou no café solúvel e criou um mercado para essa produção nascente e que, muito depois, sempre apostou na inovação. A alta qualidade do café que a região de montanha do Espírito Santo está alcançando deve-se em grande parte ao esforço que foi feito pelo Grupo Tristão para qualificar a produção de café. Hoje eu vi um produtor de café capixaba que ganhou um prêmio e vendeu uma saca por 26 mil reais. A diferença é brutal entre o café produzido de qualquer jeito e o café especial. Então eu acho que o Grupo Tristão, lá atrás, com Dário Martinelli e o Eduardo Glazar tiveram um papel importante nessa produção, mas o Grupo Tristão faz a passagem para modernidade.

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