Academias como alicerce: a importância das instituições de ensino para o ecossistema de inovação capixaba


Por Andressa Antunes, participante da oficina de Jornalismo Innovation Writing, realizada pelo WhitepaperDocs em parceria com Sebrae-ES, Sicoob e Hub Fucape.

No ESX – Espírito Santo Innovation Experience, realizado na Praça do Papa de 2 a 5 de dezembro, o público teve a chance de passar por uma imersão no ecossistema de inovação capixaba. Neste cenário composto por diferentes atores, com diferentes funções e alcance, a Academia possui um papel central: a de formar talentos qualificados para atuar na construção de soluções tecnológicas e de grande impacto.

Para saber mais sobre o papel destas instituições e os desafios enfrentados por esses atores, o WhitepaperDocs entrevistou Anilton Salles Garcia, professor e diretor do Instituto de Inovação Tecnológica da Ufes. Doutor em Engenharia Elétrica e membro da Mobilização Capixaba pela Inovação (MCI), Garcia é figura de destaque e participou de palestras e mesas de debate durante todo o evento. 

Confira:

Um ecossistema de inovação é formado por diferentes atores, que com suas funções distintas atuam de maneira colaborativa para o desenvolvimento local. Neste cenário, qual é o papel da academia, como ator deste sistema?

Anilton Salles Garcia: A Academia tem um papel fundamental porque trabalha na pré-formação, que são as atividades de desenvolvimento das suas pesquisas, técnicas e científicas; trabalha na formação, através dos cursos que a academia oferece; e trabalha também na educação continuada, que são aquelas capacitações e formações após as pessoas terminarem os cursos de nível superior. Então, a Academia tem um papel muito importante em toda a cadeia que envolve a inovação.

Quais são as formações consideradas necessárias para que as Academias desenvolvam atores capacitados para um ecossistema de inovação?

Anilton Salles Garcia: Existe um processo até os negócios inovadores chegarem aos grandes demandantes, que são as empresas, órgãos públicos, organizações da sociedade e normalmente com relação à questão das tecnologias. Mas na minha visão o problema não é apenas tecnológico. Por quê? Porque é importante você ter capacitação não apenas de talentos para o setor tecnológico, mas também a introdução desses talentos no que eu denomino como Mundo 4.0, que está presente em tudo da nossa vida. 

Esse mundo influencia na cultura, nas questões filosóficas das vidas das pessoas, vai influenciar na das organizações e também nos processos organizacionais e operacionais e até mesmo na comunicação. Por isso, quando eu penso nessa capacitação, é importante destacar que ela não é uma capacitação apenas tecnológica, e sim algo muito mais complexo, porque é preciso  juntar todos esses setores que citei: o governo, as empresas e as organizações da sociedade civil. Não são apenas cursos, e sim um programa estruturante que unifique essas áreas. 

O senhor acredita que as faculdades, universidades e institutos tecnológicos do Espírito Santo estão atendendo à atual demanda do ecossistema de inovação capixaba?

Anilton Salles Garcia: O trabalho que nós fazemos hoje não é suficiente. De um lado, existem as dificuldades que as instituições enfrentam para fazer a modernização dos seus currículos dos planos dos cursos. Além disso, as instituições estão trabalhando ainda hoje de forma isolada: nós não estamos aproveitando as habilidades e competências do sistema acadêmico capixaba. Por outro lado, aquilo que as instituições conseguem formar é feito com muita qualidade. No entanto, a quantidade que nós formamos é muito menor do que a necessidade do ecossistema.

Como é, hoje, a relação entre empresas e academias no Espírito Santo? 

Anilton Salles Garcia: Hoje em dia a relação das duas universidades com as empresas de inovação é uma relação muito boa. Elas conversam. Por exemplo, com os grandes demandantes, que são as grandes empresas, existem conversas permanentes e o desenvolvimento de projetos em colaboração. No mundo das startups, a comunicação é mais direta porque as instituições acadêmicas estão sendo utilizadas em pequena escala. No entanto, eu acredito que elas deveriam ser usadas numa escala muito maior, para que essas startups possam desenvolver os seus produtos.

Inclusive, na Ufes, temos um espaço empreendedor no campus Goiabeiras que possui 10 projetos instalados e que foram totalmente concebidos e desenvolvidos num laboratório de pesquisa. É um fenômeno que temos observado, os nossos laboratórios de  pesquisa estão gerando spin offs acadêmicos, ou seja, os trabalhos dos alunos da universidade estão gerando projetos de graduação, dissertação de mestrado, tese de doutorado e muitas vezes esses alunos estão saindo e usando essas pesquisas como parte das startups que eles estão criando.

De qual forma a Ufes colabora com o sistema de inovação capixaba e quais os impactos desta atuação?

Anilton Salles Garcia: Em primeiro lugar, a Ufes colabora com o ecossistema de inovação participando ativamente de todos os debates. Hoje,  e digo como  diretor de Inovação Tecnológica da instituição, a Ufes é a coordenadora do diálogo de formação de talentos. Ou seja, toda a discussão relacionada ao tema passa pelos debates internos da nossa universidade e daí nós levamos a proposição para os demais. Também temos participado na proposição e estruturação de ecossistema em outras regiões. Por exemplo, a estruturação do ecossistema Norte capixaba. A Ufes é uma das lideranças deste projeto, que está praticamente desenvolvido e entrando na fase final para em 2022 iniciar a parte operacional.

Além do espaço empreendedor do campus de Goiabeiras, que é uma incubadora, nós estamos estruturando o espaço empreendedor também em Maruípe, para a área da saúde, e vamos estruturar o mesmo projeto no Ceunes do Norte do Espírito Santo.

Qual a importância do ESX neste cenário? Como o evento colabora para a valorização das Academias e também na interação entre essas instituições e outros atores do ecossistema? 

Vou traduzir essa importância em uma única observação: é a primeira vez que a Ufes, enquanto instituição, está presente num evento dessa natureza. Ela sempre é atuante, mas de forma isolada, através dos laboratórios de pesquisa. Mas no ESX 2021, a Ufes está presente como instituição. O visitante pode vir no nosso estande, possibilitando  que as nossas pesquisas altamente científicas sejam expostas para a sociedade. Dessa forma, as pessoas verão os benefícios que essas pesquisas trazem para as empresas e também para a sociedade como um todo. Não há justificativa maior do que essa importância.