O futuro da moda é agora: indústria se reinventa diante dos novos tempos


Por Gabriela Brito

Imagine um contexto onde quase todo o processo de fabricação das roupas é digitalizado: as propriedades dos tecidos e o caimento dos modelos são simulados digitalmente, corpos reais são digitalizados por meio de scanners 3D, as marcas utilizam inteligência artificial para prever novas tendências de moda e planejar coleções, desfiles são realizados virtualmente e roupas confeccionadas por meio de impressão 3D.

Tratam-se de tradicionais práticas físicas sendo substituídas por inovações que garantem maior eficiência e sustentabilidade. Parece futurista, mas esse cenário já é realidade.

Exemplo de renderização 3D. Crédito: Reprodução/Instagram/@suule.official

A indústria da moda é um setor que está sempre se reinventando conforme o mercado inova, mas em um contexto de indústria 4.0, considerada a quarta revolução industrial, a utilização de novos processos de confecção está sendo acelerada, principalmente após a pandemia da Covid-19, que forçou todos os setores a se adaptarem ao mundo virtual.

Seguindo essa tendência, empresas renomadas do mercado da moda já estão aderindo a novas tecnologias. Um exemplo é a marca de roupas norte-americana Tommy Hilfiger , que anunciou que, aos poucos, irá digitalizar todo o processo de produção das coleções, eliminando esboços no papel e amostras físicas de roupas. O objetivo é incorporar uma produção mais sustentável, economizando tempo e custos para a empresa. A marca chegou a fundar uma incubadora de tecnologia, a Stitch, que oferece uma biblioteca virtual de tecidos, padrões e cores, visando a instruir os trabalhadores da empresa sobre o design 3D.

Crédito: Divulgação/Tommy Hilfiger

Outra inovação que tem se destacado é a realidade aumentada. Muito popularizada por filtros de aplicativos como Instagram e Snapchat, a tecnologia é capaz de projetar elementos virtuais, como imagens e gráficos, à nossa visão da realidade. Com o objetivo de melhorar a experiência do consumidor, a tecnologia pode, por exemplo, reproduzir um sapato no pé do usuário por meio da câmera do smartphone. Assim, o cliente pode provar o produto sem sair de casa.

Uma marca que já experimentou a realidade aumentada é a fast-fashion espanhola Zara. Em 2018, foi lançada uma coleção especial, que poderia ser acessada por meio dos dispositivos móveis. Bastava o usuário baixar um aplicativo e apontar a câmera do celular para o modelo desejado para analisá-lo mais de perto.

No Brasil, uma das empresas pioneiras no ramo da digitalização de roupas é a Hōl. Com a missão de promover valores sustentáveis, a empresa utiliza as novas tecnologias de computação gráfica para desenvolver soluções de vestuário e acessórios digitais. Moda digital, visualização 3D e realidade aumentada são algumas das experiências proporcionadas pela Hōl.

Desfile digital promovido pela Hōl. Crédito: Divulgação/Hōl

Neste contexto, onde técnicas de renderização 3D e inteligência artificial são tão valorizadas quanto as expressões artísticas do design, as escolas de moda ao redor do mundo estão adaptando seus currículos às demandas do novo mercado digitalizado. No Espírito Santo, o curso de Design de Moda do Centro Universitário Faesa tem acompanhado as novas tendências.

O coordenador da Unidade de Arquitetura e Urbanismo e Design da Faesa, André Lima Ferreira, explicou que a grade curricular do curso está sempre sendo atualizada para atender a necessidade do mercado, objetivando a empregabilidade dos estudantes.

“Na última atualização do currículo, a disciplina de 3D aplicado ao Design de Moda foi inserida em nossa grade. Nela, o aluno desenvolve roupas e acessórios em 3D utilizando softwares específicos, renderização e animação”, conta. 

Além da inserção no currículo, atividades extracurriculares são promovidas para que os estudantes compreendam melhor as inovações dos novos tempos do mercado da moda. “Os alunos têm contato com profissionais atuantes no Design de Moda 3D em palestras e eventos, como aconteceu no Ciclo de Palestras, que ocorreu em novembro de 2021. Na ocasião, os alunos receberam o designer Gabriel Moro para um bate-papo”, acrescentou o coordenador do curso.

Personagem criado pelo designer Gabriel Moro, diretor criativo especializado em artes 3D, para o desfile virtual da marca Azo. Crédito: Reprodução/Instagram/@gabrielmoro
Na economia capixaba

Além disso, outras iniciativas estão sendo realizadas para favorecer a inovação do setor de Confecção, Têxtil e Calçado, identificado como um dos setores que mais impulsionam a economia capixaba. 

Em 2020, a Findes, por meio do Ideies, lançou a Rota Estratégica de Confecção, Têxtil e Calçados, que enumera ações de curto, médio e longo prazo para que a área se desenvolva em toda a sua potencialidade. No Estado, as duas regiões com maior organização para confecções são Grande Vitória e Colatina, e a ideia é aproximar o setor das universidades para que acompanhem as novidades tecnológicas e se tornem mais competitivas em relação ao mercado. 

Os setores têxtil e de confecção também possuem atendimento preferencial no Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes). Uma gerente de negócios exclusiva é destinada às empresas do segmento que buscam alternativas de investimento em modernização. São contempladas indústrias do segmento têxtil, ou seja, relacionadas a processos de produção de fibras, fiação, tecelagem, malharia e aviamentos, bem como indústrias de confecção, que engloba o desenvolvimento do produto, modelagem, plotagem, costura, beneficiamento e estamparia. 

O Bandes também oferece linhas de crédito para investir em estudos e pesquisas para identificação de tendências sociais e de consumo, além de empresas nascentes de base tecnológica, com soluções para demandas das atividades da cadeia produtiva. O objetivo é adequar os modelos de negócios e seus parques fabris para as modernizações e tendências da moda.

Modelagens mais inclusivas

Além das inovações tecnológicas, a área da moda também avança nas pautas sociais. Com o objetivo de evitar disparidades, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), por meio da NBR 16933, publicou tabelas que trazem medidas para padronizar os tamanhos de roupas femininas no País.

Um estudo foi realizado para que se chegasse em um consenso quanto às medidas reais da mulher brasileira. Foram nove anos analisando os corpos de 10 mil mulheres de todas as regiões do Brasil, com tamanhos que variam do 34 ao 62. A pesquisa revelou que os biotipos “retângulo” e “colher” representam 80% da população feminina. Estes formatos, porém, são os menos atendidos pelo mercado.

Indo além dos tradicionais P, M e G, o objetivo é que as marcas ofereçam informações como os centímetros de busto, cintura e quadril já na etiqueta, uma experiência similar ao que já é oferecido pelo comércio online.

Em 2009, foi lançada a normativa com as medidas infantis e, em 2012, foram estabelecida as medidas referenciais masculinas. No entanto, em 2012 foi revogada a norma que tratava, de forma genérica, as medidas femininas. Desde então, cada varejista utiliza seu próprio formato de modelagem. Crédito: Freepik

As marcas não são obrigadas a cumprir as normas, o que deve acarretar em uma mudança lenta. Ainda assim, trata-se de um avanço, dado que impacta em uma indústria que irá prezar pela diversidade de corpos e ser fidedigna à realidade da mulher brasileira. Além disso, evita constrangimentos e possíveis contratempos corriqueiros que existem ao comprar uma roupa. Afinal, não é incomum que, ao experimentar uma peça que deveria ser do seu tamanho, ela fique demasiadamente grande ou pequena.

Os avanços da indústria devem acompanhar os avanços do debate público e o surgimento das novas tecnologias. A principal tendência da moda, agora, são designs que promovam consciência ambiental e social. Diante de um público consumidor tão atualizado nas questões do novo mundo, se destacam as marcas que promovem inovações nesse sentido.